Gotas d'Orvalho w/ Mariana Martins de Oliveira, José Crespo e José Penacho
Ossos da Terra é uma peça radiofónica de criação coletiva construída a partir de uma gravação, mantida em estado cru, de uma conversa informal com a minha avó, Virtuosa, sobre a vida rural no Alentejo durante o Estado Novo: trabalho, alimentação, gestos de cuidado e experiências do corpo, incluindo o trabalho feminino e a gestão da menstruação em contextos de escassez. O título, inspirado num capítulo de Alentejo é Sangue, de Antunes da Silva, evoca o território como corpo vivo onde a memória se guarda em gestos e saberes partilhados entre gerações.
A voz de Virtuosa não é entrevista nem documento histórico, mas arquivo incorporado e matéria viva. Em diálogo com ela, José Crespo e José Penacho criam composições originais a partir de fragmentos da gravação e de referências ao cante e às canções de trabalho, onde ritmo, repetição e respiração prolongam a transmissão oral e fazem coexistir fala e canto.
Com uma perspetiva feminista, a peça reconhece as práticas de subsistência e cuidado como formas de conhecimento historicamente invisibilizadas. A rádio surge como espaço de ativação da memória, onde estas vozes voltam a circular e a criação sonora afirma a continuidade entre gerações.